Algumas considerações sobre o céu e o inferno

         De acordo com o pensamento Espírita, a morte biológica não nos remeterá a apenas dois caminhos definitivos: o céu e o inferno, ou um transitório, o purgatório. Do contrário, cada um viverá uma experiência individual e única. Independentemente onde o Espírito se encontrar, pela sua identidade vibratória, forjada pelo conjunto das realizações, estará vivenciando um estado consciencial mais venturoso ou mais infeliz, conforme a frase do Cristo: "A cada um segundo as suas obras"1.

         Desse modo, de acordo com a realidade íntima, alguns poucos Espíritos, lúcidos e conscientes da situação, poderão, inclusive, ajudar no processo de desligamento do próprio corpo e após serão conduzidos para uma organização no mundo espiritual. Outros, inconscientes, sem saber que já desencarnaram, continuarão a viver na Crosta, atraídos pelas antigas preocupações e desejos que nutriam; e muitos permanecem assim até reencarnar novamente. Há também os sofredores que, embora conscientes de sua realidade, estarão enfrentando suas aflições, suas culpas e seus remorsos, até arrependerem-se e aceitarem a ajuda divina que nunca falta àquele que sinceramente deseja renovar-se.

         Também não se pode estabelecer paralelos entre o Céu, das outras concepções religiosas, e algumas colônias espirituais como, por exemplo, Nosso Lar, uma das muitas cidades existentes no mundo espiritual. Cidade astral essa, transitoriamente habitada por Espíritos que ainda necessitam da reencarnação, e lugar de refazimento para muitos enfermos espirituais.

         Da mesma maneira, o umbral não é o inferno dentro da concepção espírita. É uma região do mundo espiritual inferior, por onde estagiam Espíritos infelizes, o qual pode ser analisado de várias formas. No sentido de portal, de passagem para o mundo espiritual, não representa propriamente uma região específica, mas uma porta de entrada no mundo espiritual por onde todos passarão. O umbral também pode representar um estado de alma. Em qualquer lugar, onde o Espírito estiver pensando no mal ou alimentando sentimentos contrários à lei de amor, estará vivendo seu Umbral interior, em virtude da psicosfera mental densa que gera. O umbral também poderá ser um lugar definido. São as regiões inferiores do mundo espiritual formadas pela concentração de Espíritos de baixo padrão vibratório. Os Espíritos infelizes, de acordo com o seu nível evolutivo, quando desencarnam, por uma força de atração semelhante à que a gravidade exerce sobre a matéria, serão conduzidos para esses lugares, onde estarão os Espíritos que desencarnam com a consciência pesada, cheios de culpas, de remorsos; os viciados, que vão em busca da satisfação dos mesmos vícios e gozos que alimentaram na Terra; e os que falharam no cumprimento dos compromissos assumidos antes de reencarnar.

         O acúmulo de energias negativas, somatizadas através dos maus pensamentos, dos sentimentos inferiores e das más ações vão gerar uma pesada densidade no perispírito que, além de tornar mais demorado o processo de desencarnação, postergará o retorno do Espírito à organização do mundo espiritual a que estiver vinculado. (...) do mesmo modo que os peixes não podem viver no ar; que os animais terrestres não podem viver numa atmosfera muito rarefeita para seus pulmões, os Espíritos inferiores não podem suportar o brilho e a impressão dos fluidos mais etéreos. Não morreriam no meio desses fluidos, porque o Espírito não morre, mas uma força instintiva os mantêm afastados dali, como a criatura terrena se afasta de um fogo muito ardente ou de uma luz muito deslumbrante" 2.

         A passagem pelo umbral, por mais dolorosa que possa parecer, é uma experiência necessária, pois há Espíritos muito materializados, que ainda necessitam de oxigênio para viver. Permanecer nessas regiões inferiores é a melhor terapia que a Providência Divina se utiliza para que o Espírito se arrependa, se desfaça das ilusões terrenas e adquira a leveza, a desmaterialização necessária para ser conduzido de retorno ao seu plano de origem.

         Como não há penas eternas nos Códigos Divinos, cada Espírito permanecerá no umbral, seja como portal, estado de alma ou região determinada, somente o tempo que se ajuste às suas necessidades.

         No entanto, àqueles que se esforçarem para domar as suas más inclinações, que fizerem o bem que foi possível, dentro das condições que o seu merecimento permitiu, o retorno ao mundo espiritual se dará sem escala e a sua readaptação será muito mais rápida.

Cleto Brutes
1KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1999. Cap. III, item 7.
2_______. A Gênese. 37. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1996. Cap. XIV, item 11

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         Quem morre não vai para o céu e nem para o inferno.

         O céu e o inferno são estados de consciência, que cada qual cria para si com o próprio proceder.

         A cada um conforme as suas obras, disse o Mestre Divino.

         A lição é cristalina e não permite enganos.

         O fenômeno da morte é natural, mas muito grave.

         Ele constitui um momento de balanço, de aferição de méritos ou deméritos.

         Assim, importa tratar do tema com serenidade e maturidade.

         Não há qualquer milagre ou favor envolvido.

         Para passar com tranqüilidade por esse momento, importa viver reta e dignamente.

         A morte não é um processo milagroso que converte homens em anjos.

         Quem era bondoso na Terra persiste bondoso e solidário no plano espiritual.

         Se amava o trabalho, permanece laborioso.

         Já o homem mesquinho também assim se mantém.

         Não há saltos na evolução.

         A análise dessas descrições revela que a felicidade depende de como se viveu, do bem ou do mal que se fez.

         Não há favores ou privilégios.

         Cada qual é feliz ou infeliz de acordo com seu próprio mérito.

         O homem caridoso é recebido pelos inúmeros seres a quem amparou enquanto na Terra.

         Ele experimenta extremo júbilo ao sentir-se amado, ao saber que bem gastou seu tempo e seus talentos.

         Já o criminoso vivencia grandes padecimentos.

         Ele vê suas vítimas, revê mentalmente as maldades que cometeu e não há fuga ou desculpa possível.

         O Espírito é feliz ou infeliz na exata proporção das virtudes que possui.

         Ciente dessa realidade e de que você inevitavelmente morrerá, reflita sobre o modo como vive.

         Para evitar construir sua casa sobre a areia, no dizer evangélico, dedique-se a amealhar virtudes e a fazer o bem.

         Apenas isso garantirá sua felicidade, quando retornar ao seu verdadeiro lar.

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